domingo, 26 de novembro de 2017

O medo da criança e sua persistência na vida adulta.


The Scream, by Edvard Munch. This version, executed in 1910 in tempera on cardboard, was stolen from the Munch Museum in 2004, and recovered in 2006.


Eu cresci imerso em uma família tradicional que viveu a maior parte de sua vida no campo, ou seja, todas as narrativas mais usadas para me manter longe dos perigos da vida faziam parte da minha educação. Coisas como, “não tome banho depois de comer, isso mata”, ou “nunca beba leite após comer manga, isso mata”, ou “não chegue perto do lago, pois a água te chama e você vai morrer afogado” ou ainda “não deixe o seu chinelo virado para baixo, ou sua mãe morrerá na mesma hora”. Essas máximas da cultura campesina ainda sobrevivem hoje em dia, principalmente nas pequenas cidades do interior. Mesmo sabendo que não passam de lendas mantidas pela tradição oral de tempos imemoriáveis, ainda tem gente que usa esse tipo de argumentos para justificar aos filhos o porquê eles devem fazer isso e não aquilo.

O mais assustador era que meus pais e avós sempre tinham uma comprovação concreta para deixar sua narrativa mais crível. “A Aninha morreu afogada, lembra? É porque ela foi na beira do açude e não resistiu ao chamado da água e entrou. ” Isso me assustava de uma tal maneira que só de pensar em passar perto de uma poça d’água eu já ficava receoso, afinal de contas eu conhecia a Aninha que morreu afogada. “O Luizinho morreu porque ele nunca obedecia sua mãe quando ela falava para ele não comer manga com leite”, poxa o Luizinho era meu vizinho. Não posso julgar hoje em dia no conforto da era da internet a educação que recebi de meus pais e avós, afinal creio que conseguiram me manter vivo durante os períodos mais turbulentos da minha vida. Nunca tive uma intoxicação alimentar, nunca tive uma congestão e nunca fui sequestrado por um tal “homem do saco”, personagem folclórico da região onde eu morava que atraia criancinhas com doces e coisas legais para depois mata-las e coloca-las no seu saco que carregava a toda parte. Sobrevivi graças ao medo que essas histórias me causavam. No entanto, hoje eu pareço pagar um preço um tanto caro por essa educação baseada no medo. Até hoje não sei nadar, pois morro de medo de água, para eu entrar em uma piscina tenho que comprovar que poderei permanecer em pé até no lugar mais fundo dela. Desenvolvi uma repulsa por leite interminável, simplesmente não tolero leite, para manter minha quantidade de cálcio em dia eu me alimento de seus derivados, mas nunca em seu estado natural. Hoje eventualmente tomo banho após o jantar, mas confesso que se eu pude evitar me sinto mito mais confortável. Pois após tomar banho depois de comer muito qualquer palpitação diferente já é um alarme para algo ruim que está prestes a acontecer.




Quando não tínhamos informações suficientes sobre as coisas e nossos pais queriam nos manter seguros essas histórias cumpriam bem seu papel, mas para crianças que já têm certa predisposição a sofrer de algum problema psíquico, que era o meu caso, essas histórias podem transformar essas crianças em adultos extremamente medrosos e limitados socialmente. Isso para não falar sobre os casos extremos de verdadeiras fobias crônicas que se instalam de forma irreversível nos indivíduos que foram criados sob essa pedagogia popular.

Há bases científicas para acreditar nessa interferência da criação infantil na vida adulta dos indivíduos. De acordo com uma pesquisa feita pela Harvard Medical School, 85% dos adultos com distúrbio de ansiedade sofrem sintomas fóbicos adquiridos durante a infância. Esse mesmo estudo feito com cerca de 250.000 pessoa ao redor do mundo revelou também que experiências precoces com situações de ansiedade tendem a se combinar e a se espalhar para outros tipos de distúrbios fóbicos. Por exemplo, se uma criança com seis anos de idade desenvolve uma fobia por cachorros, ela tem 5 vezes mais chances de desenvolver fobia social na sua adolescência do que uma criança que nunca teve medo de cachorro. E essa mesma criança tem 2.2 vezes mais chances de sofrer de depressão quando adulto. Ou seja, grosso modo, nossa vida psicológica adulta é moldada pelo quão medrosos nós fomos em nossa infância. (p.230) Nota-se que a aquisição de uma fobia na infância pode levar ao desenvolvimento de outra mais grave na adolescência que pode ser o pressagio de uma outra na vida adulta. Essa sucessão de distúrbios que se originam de outros é definida pela comunidade medica pelo termo “Comorbidade”. O jornalista americano Ron Kessler embasado nos estudos sobre comorbidade declarou que “ o medo de cachorro aos 5 ou 10 anos é importante não porque medo de cachorro prejudica sua qualidade de vida. Medo de cachorro é importante porque isso faz você 4 vezes mais suscetível a se tornar um indivíduo de 25 anos, deprimido, avesso aos estudos ou uma mãe solteira dependente de drogas. ” (230) é certo que a interferência das fobias infantis na vida adulta ainda é controversa necessitando de mais estudos acadêmicos sobre o tema, e mesmo que as palavras de Ron Kessler ainda possam ser consideradas exacerbadas, temos que admitir que sua preocupação é legítima. Quanto mais cedo diagnosticado o distúrbio de ansiedade e iniciado o tratamento correto, maiores as chances de termos uma vida adulta onde a ansiedade possa ser melhor administrada.  

No meu caso, ainda venho tentando descobrir o embrião de algumas fobias que me acompanham desde que me conheço, uma delas é um medo irracional de répteis, principalmente lagartos pequenos e serpentes. Simplesmente não posso nem pensar na existência dessas criaturas sem me arrepiar. Outra é uma fobia social que apesar de ocasionalmente controlada ainda me tira muitas oportunidades na vida. Sobre a fobia de lagartos, isso pode ser devido a um episódio que presenciei quando tinha lá meus 4 ou 5 anos quando uma lagartixa dessas de parede caiu na cabeça de minha mãe e ela se desesperou tanto que começou a correr pelo quintal como alguém que estivesse sendo perseguido pelo Michael Mayers. Não sei se eu já tinha esse medo antes, mas é a mais antiga memória de ver alguém em prantos por causa de um calango.


Sobre a fobia social creio que ainda tenho muito que descobrir, mas tenho algumas pistas, como sendo proeminente de um outro problema que hoje é classificado pelo manual estatístico de doenças psíquicas como “fobia de separação”, onde uma criança não suporta ser separada de seus pais. Eu definitivamente fui uma criança que seria diagnosticado com esse distúrbio se um psiquiatra atual me analisasse. Não suportava a ideia de ficar longe da minha mãe, pois meu pai havia falecido e creio que o medo de perdê-la foi amplificado a um nível doentio. Se levarmos em conta a pesquisa de Harvard citada acima, eu posso estar sofrendo hoje as consequências de uma fobia infantil que não foi resolvida e ela se ampliou de forma generalizada moldando meu comportamento na minha vida atual. Pode ser que o meus medos infantis tenham me tornado uma pessoa corajosa o suficiente para me mudar e viver sozinho e enfrentar as mazelas sociais que atingem um cidadão brasileiro de classe média-baixa, acelerar uma motocicleta em uma rodovia esburacada em plena tempestade, mas que não conseguiria entrar no meu próprio quarto se uma lagartixa estivesse grudada na parede ou até mesmo tremeria até os dentes só com o fato de ter que participar de um evento público onde a maioria das pessoas presentes me fossem desconhecidas. Mas como eu disse, esse ainda é um assunto complexo que estou trabalhando e postarei mais coisas a respeito.


Fontes:

  • Stossel, Scott. My Age of Anxiety - Fear, Hope, Dread and Search for Peace of Mind. Link amazon.
  • TRANSTORNOS DE ANSIEDADE: UM ESTUDO DE PREVALÊNCIA SOBRE AS FOBIAS ESPECÍFICAS E A IMPORTÂNCIA DA AJUDA PSICOLÓGICA. Disponível em PDF Em: file:///C:/Users/stanley/Downloads/2611-8228-1-PB.pdf. Acesso em: 26 de novembro de 2017.




André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Da Folia de Reis ao Halloween.

Foto: Pit Thompson - 62º Encontro Nacional de Folia de Reis de Muqui ES


Hoje em dia muito se fala na coexistência pacífica de várias culturas distintas em uma mesma sociedade, e para isto se cunhou o termo multiculturalismo. O Brasil, devido às suas proporções continentais e aos vários povos distintos que ajudaram a construir sua cultura, seria um exemplo de país multicultural, pois em um mesmo território politicamente constituído, podemos ter o privilégio de ver danças de origem indígena, como a Catira, danças rituais provindas de povos africanos, como a Congada, e ainda rituais da religiosidade popular que foram trazidas pelos portugueses, como a Folia de Reis, sendo todas praticadas em uma atmosfera de relativa paz. Tanto a Catira, como a Congada e a Folia de Reis são manifestações culturais de origens distintas que fazem parte do que se convencionou chamar de “cultura tipicamente brasileira”.

O Brasil possui uma rica e complexa atividade cultural, e podemos notar que estas atividades coexistiram paralelamente durante séculos de colonização, escravidão e imigração. Será que nossa rica cultura será agora nesta era da internet, suplantada por este emaranhado de culturas estrangeiras, que em muitas ocasiões se impõem em detrimento das nossas? 

        Desde o fim da Guerra Fria, quando o capitalismo vem conseguindo status de vencedor, gerando até algumas teses que decretavam o fim da União Soviética como o fim da própria história, o mundo vem passando por uma aceleração do processo de globalização. Processo esse que grosso modo, teve início com a expansão marítima dos países ibéricos no início do século XVI. Foi se intensificando com a Revolução Industrial na Inglaterra do século XVIII. Mas foi somente com o fim da bipolarização entre “bloco capitalista” e “bloco comunista” que esse processo vem se evidenciando de forma realmente global.

             A queda do Muro de Berlim pode ser considerado o marco simbólico que ilustra uma ideia de propagação do capitalismo como regime que democratizaria todo o globo. A dominação ideológica do capitalismo foi responsável, dentre outras coisas, por uma visão global de uma cultura dominante, fundamentada sobretudo, no padrão cultural norte-americano. O “American way of life” se espalhou mundo afora como um modelo a ser atingido pelos cidadãos dos países periféricos. Neste sentido, manifestações culturais provindas dos Estados Unidos são introduzidas no Brasil como elemento que integra uma noção de cultura superior, por estar vinculada à modernidade. Isto ocorre muitas vezes em detrimento da cultura tradicional local que passa a habitar um campo secundário nas relações culturais em um mundo cada vez mais globalizado. Esta globalização que se intensifica continuamente gera, no entanto, em âmbito nacional, alguns antagonismos provocados, sobretudo pela ação do Estado no intuito de fortalecer a identidade nacional. Assim, a introdução de uma manifestação cultural provinda dos Estados Unidos, como o “Halloween”, encontra alguns empecilhos internos, como movimentos de cunho nacionalistas, frentes formadas por políticos – muitas vezes oportunistas – tentando demonstrar algum amor a pátria ou de religiões evangélicas realizando uma verdadeira “Cruzada” contra o paganismo.

 No entanto, o “Halloween” praticado no Brasil hoje está isento do significado que esta festa possuía para aqueles que viviam nos países onde ela surgiu, ou que foram colonizados por estes. Nos Estados Unidos, de onde esta prática se espalhou para o mundo, o “Halloween” ganhou status de uma das datas do ano de maior faturamento no comércio, perdendo apenas para o Natal. Além disso, o cinema comercial norte-americano deu a essa festa um certo padrão às suas práticas. É essa noção que veio a se instalar no Brasil nas ultimas décadas. As crianças e adolescentes que praticam o “Halloween” no Brasil, não estão com isso, celebrando um festival folclórico, mas sim se integrando ao mundo do entretenimento global.

São os próprios atores sociais dessas manifestações que podem descrever melhor o que estas práticas significam para suas vidas como seres sociais. Neste contexto, o objetivo de um pesquisador da história cultural brasileira passa a ser, contrastar opiniões e analisar os mecanismos que levam uma tradição estrangeira a se impor perante uma cultura que possui seus próprios valores intrínsecos. 

 A Folia de Reis faz parte de uma comemoração cristã difundida essencialmente pelo catolicismo popular, tendo em Guaxupé, Minas Gerais, até mesmo uma igreja dedicada aos “Santos Reis”. Já o “Halloween” de origem pagã, sofre uma dura reprovação por parte das instituições cristãs. Católicos e principalmente protestantes, investem arduamente no intuito de desviar seus fiéis do caminho desta “festa demoníaca”. No entanto, essas performances religiosas e, ou nacionalistas não são capazes de estancar o avanço mundial da cultura global de rede. Fica aqui essa reflexão. O que acontecerá com a cultura popular?


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem (Resumo)

Don Juan y l'estatua del Comendador.

Versão Resumida
Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina.




O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.
Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
O Don Juan de Molina não é um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. 
A figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. 


O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.
Esse mito se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.

Leia o artigo completo AQUI

Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem







Don Juan y l'estatua del Comendador.

Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina. A escolha da obra em questão está em sintonia com um recorte temporal e temático, que não visa esgotar as reflexões sobre o tema em épocas e contextos diferentes.
O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.

O protagonismo social do homem na obra de Molina
Tirso de Molina

Para analisarmos a obra devemos entender um pouco sobre seu autor. Tirso de Molina era o pseudônimo de Gabriel Téllez, um frei católico abertamente entusiasta de Lope de Vega. Se destacou na dramaturgia escrevendo peças que tinham sempre a defesa da moral cristã como pano de fundo. Ele teria escrito “El burlador de Sevilla y el convidado de piedra” em 1630. Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
Nosso foco, no entanto, é a obra original de Molina, considerando-a como fundadora do mito de Don Juan para a posteridade. Em “El Burlador de Sevilla” Don Juan é um protagonista caricato, sem compromisso com a visão romântica que chegou até nós pelas mãos do poeta britânico Lord Byron. O Don Juan de Molina é um personagem que está estreitamente em sintonia com sua condição privilegiada de um homem com influência na sociedade de Sevilha do século XVII. Sua performance não é de um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. Como podemos notar no verso 1315 da peça.

Sevilla a voces me llama
el burlador, y el mayor
gusto que en mí puede haber
es burlar una mujer
y dejarla sin honor.
(MOLINA, p.35)

Já no início da obra, Don Juan acobertado pela escuridão de um aposento, engana a Duquesa Isabela fingindo ser Duque Octavio, o homem que desejava se casar com ela. Neste episódio, o próprio Duque é preso injustamente pelo ato praticado por Don Juan. Em uma outra oportunidade, Don Juan sofre um naufrágio e é ajudado por uma pescadora de nome Tisbea. Don Juan a seduz e oferece amor eterno e, a pede em casamento, em seguida abandona-a para que viva completamente sem honra. Durante uma conversa com seu amigo, o Marques de Motta, Don Juan descobre que este está apaixonado por sua prima Doña Ana, o burlador não perde a oportunidade de tramar para se aproveitar da bela dama, no entanto, nessa ocasião, Don Juan é impedido pelo pai da vítima, Don Gonzalo, que é morto pelo burlador em uma luta. Isso não o detém, e vai em busca de outra vítima. Aminta é uma lavradora que já estava prometida a Batrício, Don Juan a engana dizendo que seu noivo a abandonara e que ele se casaria com ela.
Como podemos notar, a figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. Sobre isso Paulo Victo Bezerra e José Sterza Justo, ambos da área da psicologia dirão:

[...]são sempre figuras masculinas que protagonizam os diálogos resolutivos. A honra da mulher burlada é apresentada como um problema masculino, no sentido de que, uma vez tirada a honra, é o pai, ou o marido que sofre a degradação social. O grande drama nesse caso é que a mulher ficará imprestável para se casar. E não podemos deixar de enfatizar que foi por isso que Don Juan foi levado ao inferno primeiramente: porque Don Gonzalo tinha a obrigação moral de duelar com aquele que lhe ofendera a honra ao tentar cortejar sua filha. (BEZERRA, JUSTO, 2010, p.6).

O que fica evidente ao analisar essa peça, com o conforto de mais de 300 anos de história ocorridos desde então é a incapacidade das mulheres se emanciparem dentro da rigidez religiosa daquela sociedade. O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.

O contexto social da obra.
Don Juan and Haidee- Alexandre Marie Colin

Podemos notar que Don Juan se comportava como um predador, e essa forma de agir é o que dá o tom didático da peça. A honra (honor), como questão de status social, era muito cara para o espanhol do século XVII. E a mulher sem honra não se casaria, sua desonra afetaria toda sua família e sua reputação a condenaria a viver uma vida marginal, seja ela uma nobre ou uma lavradora. Ou seja, mais importante do que o que você é, é a forma como a sociedade te enxerga.  A honra é um elemento fundamental para a vida, pois entre viver uma vida sem honra (honor) e a morte, a segunda opção sempre parecerá mais atrativa. Isso fica evidente no verso 1590.

¡Ay, que me has dado la muerte! ........... .
Mas, si el honor me quitaste,
¿de qué la vida servía?
(MOLINA, p. 43)

Nessa ocasião, Don Gonzalo está agonizando após ser atingido de morte por Don Juan, ao enfrentar o burlador em defesa de sua filha Doña Ana.
Parece-nos claro que a questão primordial para Molina, era efetivar a honra como elemento crucial para a vida em sociedade, uma clara medida de valor que deve ser buscada. No entanto, o que vem a luz em nossa reflexão é o fato de que eram as ações dos homens que definiam a honra das mulheres, enquanto uma mulher desonrada sofreria as mais deprimentes consequências sociais, o mesmo não parecia ocorrer aos homens que as desonravam.
O próprio Don Juan não acreditava que seria punido – ou pelo menos não tão em breve – afinal ele nunca se mostrava cauteloso em suas práticas de burla. Apesar de sempre ser advertido por seu pai e até mesmo pelo seu criado Catalinon. Em várias ocasiões ele simplesmente respondia com sua frase mais celebre: “¡Qué largo me lo fiáis!” (Ainda  uma expressão que expressa sua indiferença em relação a seus atos presentes, pois ainda há muitos anos para ele pensar em se arrepender.
Nesse sentido, a condenação do protagonista ao inferno, é o desfecho que parecia natural desde o início da trama, afinal o propósito de Molina se mostra claro. Mesmo que você viva impune pelas leis dos homens, jamais será negligenciado pelas leis divinas. Dessa forma Don Juan paga o preço pretendido pelo catolicismo, pois é diretamente encaminhado para o inferno sem nem mesmo passar pelo purgatório. Ou seja, á Don Juan nem mesmo é dada a alternativa de se arrepender, como poderiam pretender os adeptos da reforma protestante de Martinho Lutero que à época era motivo de preocupação para os católicos – esse aspecto revela o caráter antirreformista da obra.
As mulheres enganadas por Don Juan são perdoadas ao final do espetáculo e recuperam sua honra, mas, mais uma vez, não mediante sua própria capacidade de lutar por isso, mas porque os homens assim o fizeram. Nesse sentido a obra de Molina perpetua o protagonismo social do homem como sujeito de ação, enquanto a mulher é o objeto que sempre sofre a ação.

Considerações finais.
As mulheres burladas pelo protagonista desempenhavam papéis secundários naquela sociedade, e sua total submissão ao domínio masculino permitiu que Don Juan desempenhasse suas práticas. Don Juan agia movido simplesmente pelo desejo de burla. Todas os seus atos não tinham um propósito que não fosse o de enganar mais uma vítima. Nesse diálogo entre Don Juan e seu criado Catalinon, o burlador é claro:

CATALINON: ¿Al fin pretendes gozar a Tisbea? (890)
JUAN: ..............                .Si el burlar es hábito antiguo mío,
¿qué me preguntas, sabiendo mi condición?
CATALINON: ..........      Ya sé que eres castigo de las mujeres.
(MOLINA, p. 24)

No entanto, todo o contexto social vivido por Don Juan lhe dava certo conforto. Don Juan era aparentado de pessoas influentes na corte espanhola e desfrutava de toda regalia de um nobre. Por outro lado, a passividade feminina na obra, demonstra com clareza, a total dependência destas em relação aos homens. Afinal não foi dada a nenhuma delas a prerrogativa de se vingar do burlador. Quem defendia e se via socialmente no dever de vinga-las eram seus familiares homens.
O mito de Don Juan se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra. O que a adaptação de Byron revela não é somente uma transformação estética, mas sim uma necessidade de equiparar a mulher e o homem no campo da paixão. Agora Don Juan também poderia ser vítima da beleza feminina. Visão esta, que era impossível na época de Molina e que no século XIX timidamente já encontrava seus algozes dentro do movimento romântico, e no século XX iria se amplificar com os movimentos de emancipação feministas.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.


Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.

André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A psicanalise contida no conto de Simbad. (Segundo Bruno Betthelheim)



Bruno Betthelheim em sua obra mais clássica A psicanalise dos Contos de Fadas, dedica um capitulo de seu livro à explicar o significado do conto Simbad e o marujo. Começa o capítulo explicando sobre os vários títulos encontrados para nomear essa mesma estória. Diz que as pessoas que se propuseram a fazer essas modificações se atentaram para o que há de fantástico e maravilhoso na estória e não se atentaram aos aspectos psicológicos que está muito claramente explicito no título original – Simbad o marujo e Simbad o carregador.

Esse título indica que se trata de características opostas de uma mesma pessoa, faz uma possível relação com o conceito freudiano de ID e Ego. Depois pergunta:

“O dono desse lugar convive com todos os prazeres da vida e se delicia com perfumes agradáveis, comidas excêntricas e vinhos exóticos... Enquanto outros suportam o máximo de trabalho...como eu” (BETTELHEIM, 1980, p. 106).

“Por que o conto de fadas consiste de sete partes e por que os dois protagonistas se separam todo dia para se reunir no dia seguinte? ” (BETTELHEIM,1980, p.106)

Ele responde dizendo que o número sete é bem recorrente nos contos de fadas pois cada dia representa um dia da semana, e também é um símbolo de cada dia de nossas vidas. E a história parece contar que conforme vivemos há dois aspectos diferentes e pertinentes a cada um de nós. Os dois Simbads são na verdade personificações distintas da mesma pessoa.

Ao analisar a estória, que é parte integrante dos contos das 1001 noites, Bettelheim, diz que o próprio ato de contar estórias de contos de fadas é muito ligado a um fator terapêutico. Sherazade consegue se manter viva diante da ira de um rei que odiava as mulheres por que o manteve curioso o bastante para sempre querer ouvir o restante da estória, e com isso acaba por libertar o próprio rei de sua ira doentia.

“De acordo com a estória básica, os dois protagonistas, um homem e uma mulher, se encontram na maior crise de suas vidas; p rei desgostoso da vida e cheio de [ódio pelas mulheres, Sherazade temendo por sua vida, mas determinada a conseguir a libertação dele e dela. Ela atinge sua meta através da narrativa de muitos contos de fadas; uma única estória não poderia realiza-lo, pois, nossos problemas psicológicos são demasiados complexos e de solução difícil. Só uma grande variedade de contos de fadas poderia fornecer o ímpeto para tal catarse” (BETTELHEIM,1980, p,110).

Ou seja, “são precisos quase 3 anos de narração continua de contos de fadas para tirar o rei de sua depressão profunda" (BETTELHEIM, 1980, p.110), encontramos ai um paralelo com a psicanalise de Freud, é necessário anos de analise para que o analisado possa conseguir entender e eventualmente se livrar de seus problemas psicológicos.

“deveríamos lembrar que na medicina hindu – e ciclo de mil e uma noites é de origem hindu-persa- a pessoa mentalmente perturbada ouve uma estória de fadas cuja, meditação a ajudará a vencer sua perturbação emocional” (BETTELHEIM,1980, p.110).

Outro nível de significado que esse conto nos proporciona seria considerar os protagonistas dessa estória como representações conflitantes que ocorrem dentro de nós.

“O rei simboliza uma pessoa completamente dominada por seu Id, porque seu ego, devido a fortes decepções na vida perdeu a força para manter o id dentro dos limites. Afinal atarefa do ego é proteger-nos contra a perda devastadora, que na estória é simbolizada pela circunstância do rei ter sido traído sexualmente, se o ego não consegue fazê-lo perde seu poder de guiar nossas vidas (BETTELHEIM, 1980, p.110).

Sobre o significado atribuído a outra protagonista da história o autor diz:


“Sherazade representa o ego como é claramente sugerido pela informação de que ‘ela colecionara mil livros de crônicas de pessoas antigas e poetas passados. Além disso ela lera livros de ciência e medicina; sua memória estava cheia de versos, estórias, folclore e dos ditos de reis e sábios e ela era sábia, espirituosa e de boa formação.’ – uma enumeração exaustiva de atributos do ego. Assim o id descontrolado (o rei) através de um longo processo elaborativo torna-se finalmente civilizado pelo impacto de uma encarnação do ego. Mas é um ego muito dominado pelo superego tanto que Sherazade está determinada a arriscar sua vida (BETTELHEIM, 1980, p.p. 110,111).


Nesse trecho podemos notar que esse conto corresponde com a premissa estabelecida pelo autor de que o conto de fada é importante para o desenvolvimento psicológico da criança, pois não procura esconder dela elementos que são inerentes a condição humana, como a morte e a traição, que são recorrentes na história.


“Não pode haver maior testemunho do poder de todos os contos de fadas para mudar nossa personalidade do que o final desse conto único. A estória básica das ml e uma noites, o ódio assassino é transformado em amor duradouro (BETTELHEIM. 1980, p.111).


Segundo o autor essa integração amorosa entre Sherazade que declara seu amor ao rei no final do conto e o rei faz o mesmo á Sherazade, mostra exatamente o que psicanálise tenta assegurar como uma forma saudável de se viver. Afinal temos tendências contraditórias dentro de nós e sempre nos perguntamos para qual lado devemos seguir. A estória de Sherazade e o rei assassino mostra que devemos fazer uma integração dessas tendências dentro de nós amenizando os aspectos destrutivos de nossa vida psicológica.

Fonte:

BETTELHEIM, Bruno. A psicanalise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

El Cid - A literatura Medieval traduzida para a linguagem hollywoodiana. (Resumo)

Poster do filme El Cid de 1961
Versão Resumida

O objetivo desse artigo é analisar o filme “El Cid”, do cineasta norte-americano Anthony Mann lançado em 1961, comparando-o com o poema medieval, “Cantar de Mio Cid” o qual, a obra cinematográfica em questão traduziu para a linguagem cinematográfica. O texto que conhecemos como o “Cantar de Mio Cid” data de 1207 quando foi transcrita por um copista chamado Per Abbat provavelmente baseando-se em escritos anteriores. Não há informações sobre quem é o verdadeiro autor do poema, pois a exemplo das epopeias clássicas trata-se de uma transcrição de poemas populares que eram cantados por poetas que o recitavam desde tempos mais remotos. Esta é considerada a obra fundadora da literatura de língua espanhola. 

Podemos declarar simplisticamente que o filme de Anthony Mann se trata de uma versão romanceada do poema medieval que conta a história das conquistas militares levadas a cabo pelo lendário cavaleiro castelhano Don Rodrigo Diaz que recebeu a alcunha de El Cid Campeador. 


A linguagem cinematográfica, no entanto, desfigura uma premissa medieval muito clara no poema, onde a mulher é praticamente uma possessão de seu marido tendo que ficar confinada longe dos olhares alheios enquanto seu marido sai a guerrear por aí. A figura de Dona Jimena, esposa de Don Rodrigo, na obra literária é secundária não tendo uma utilidade marcante como o filme veio a mostrar. Sophia Loren como a interprete de Jimena no filme, já nos dá a dica de que ela será quase uma protagonista, e assim o é. Afinal de contas, ao contar uma história medieval para um público contemporâneo sem conhecimento histórico suficiente para entender a mentalidade da época não é tarefa fácil.

A transposição da lenda de El Cid para o cinema, como era de se esperar, sofrera uma transfiguração, que eu chamaria de adequação temporal, introduzindo um elemento caro ao homem do século XX que pensa o casamento como a realização de um ideal romântico, onde duas pessoas que se apaixonam se buscam e não conseguem viver um sem o outro. 

É uma produção grandiloquente, com cenas épicas de batalhas e duelos entre cavaleiros, tem um protagonista com uma índole superior, representando tudo o que de mais virtuoso há em um homem comprometido co sua honra e seu temor à Deus. Sua bela esposa Jimena representa a mulher ideal sonhada por qualquer homem do século XX. Há também antagonistas caricatos como o rei mouro que pretende ser o senhor de todos os reinos muçulmanos e é sempre representado de preto e com o rosto semicoberto. Mostra a ascenção de um rei Alfonso frágil e dependente de El Cid. Com todos esses elementos, temos um enredo que se distancia do histórico e nos aproxima do que idealizamos como sendo uma época heroica e romântica, onde o antagonismo entre o bem e o mal era bem definido. Onde a prevalência da honra e da moral deve ser o objetivo final.


Leia o artigo completo AQUI

Fontes:

  • Cantar de Mio Cid - PDF domínio Público disponível em: http://www.biblioteca.org.ar/libros/200138.pdf. Acesso em: 20 de julho de 2017.
  • Cantar de Mio Cid (POema de Mio Cid), audio libro - Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lA-_7U3pFxQ. Acesso em: 20 de Julho de 2017.
  • El Cid. Direção: Anthony Mann. Produção: Samuel Bronston Productions em associação com Dear Film Production. Itália/EUA, 1961, cor, 182 min. Lançado por: Allied Artists Pictures Corporation.
  • Montaner, A. El Cantar de Mio Cid. Real Academia Española. FUndación José Antonio de Castro, Madrid.
  • Vernon Johns Society, The El Cid(1961). Disponível em: http://www.vernonjohns.org/snuffy1186/elcid.html. Acesso em: 20 de julho de 2017.



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

El Cid - A literatura Medieval traduzida para a linguagem hollywoodiana.

Poster do filme El Cid de 1961


O objetivo desse artigo é analisar o filme “El Cid”, do cineasta norte-americano Anthony Mann lançado em 1961, comparando-o com o poema medieval, “Cantar de Mio Cid” o qual, a obra cinematográfica em questão traduziu para a linguagem cinematográfica. O texto que conhecemos como o “Cantar de Mio Cid” data de 1207 quando foi transcrita por um copista chamado Per Abbat provavelmente baseando-se em escritos anteriores. Não há informações sobre quem é o verdadeiro autor do poema, pois a exemplo das epopeias clássicas trata-se de uma transcrição de poemas populares que eram cantados por poetas que o recitavam desde tempos mais remotos. Esta é considerada a obra fundadora da literatura de língua espanhola. 

Podemos declarar simplisticamente que o filme de Anthony Mann se trata de uma versão romanceada do poema medieval que conta a história das conquistas militares levadas a cabo pelo lendário cavaleiro castelhano Don Rodrigo Diaz que recebeu a alcunha de El Cid Campeador. El Cid foi uma figura histórica que realmente existiu e é talvez o herói máximo da unificação da Espanha cristã no século XIII. O poema trata das últimas campanhas militares de El Cid que culminou com a conquista – ou reconquista – de diversos territórios que se encontravam sob domínio mouro há séculos. O manuscrito transcrito por Abbat mostra um cavaleiro medieval clássico, forte, valente, piedoso, fiel. Ou seja, catalizador das maiores virtudes atribuídas e esperadas de um guerreiro medieval cristão. 

O filme de Mann também procura munir seu protagonista com esses mesmos atributos. Como por exemplo na cena em que El Cid se oferece ao seu rei Fernando I de Leão, para duelar com o campeão de um reino com o qual disputava territórios. Na ocasião o campeão do rei Fernando I, havia rechaçado o pai de Don Rodrigo em público e diante da recusa de um pedido de perdão implorada por El Cid, ele é morto pela espada do campeador. No discurso de oferecimento de seus serviços ao rei que não acreditava na capacidade de El Cid, em duelar com um campeão que já havia matado 27 cavaleiros em duelo corpo a corpo. El Cid se oferece, pois, fora ele próprio que deixara o rei sem seu campeão e que estava agora se colocando a serviço do rei para limpar sua imagem diante da corte onde o estavam acusando de traição. El Cid declara: “ Deixe-me agora oferecer-me diante de sua alteza, se eu for culpado Deus direcionará a espada de Don Martin direto para meu coração, se eu for inocente Ele será meu escudo”. A cena mostra um homem corajoso colocando sua vida em risco em nome de sua honra e colocando seu destino na mão de seu Deus. 

O filme também retrata a aliança que El Cid esporadicamente fazia com alguns líderes mouros para lutar contra reinos que lhes eram mutuamente inimigos. Essa faceta do campeador é um ponto em comum com o poema medieval que retrata suas amizades com alguns mouros, algo que não ocorria por exemplo com os judeus. 

O poema, no entanto, começa a narrar a história após o exílio de El Cid proclamado pelo rei Alfonso VI, filho de Fernando I que ao morrer dividiu seu reino entre seus filhos. Na ocasião Alfonso sobe ao poder depois da morte de seu irmão Sancho que queria reunificar os reinos de seu pai novamente e tinha em Don Rodrigo um forte aliado. Don Rodrigo exige que Alfonso antes de ser coroado jurasse publicamente que não tinha tido participação no assassinado do irmão. A cena do juramento é um dos pontos altos do filme e é por conta dessa impertinência de exigir o juramento do rei que ele é exilado, o que ocorre já na segunda metade da trama. Os elementos que o roteirista usa para contar a história de El Cid anterior ao exílio, apesar de inverossímeis, foram também baseadas em outros escritos biográficos sobre o campeador. 

A linguagem cinematográfica, no entanto, desfigura uma premissa medieval muito clara no poema, onde a mulher é praticamente uma possessão de seu marido tendo que ficar confinada longe dos olhares alheios enquanto seu marido sai a guerrear por aí. A figura de Dona Jimena, esposa de Don Rodrigo, na obra literária é secundária não tendo uma utilidade marcante como o filme veio a mostrar. Sophia Loren como a interprete de Jimena no filme, já nos dá a dica de que ela será quase uma protagonista, e assim o é. Afinal de contas, ao contar uma história medieval para um público contemporâneo sem conhecimento histórico suficiente para entender a mentalidade da época não é tarefa fácil.

A transposição da lenda de El Cid para o cinema, como era de se esperar, sofrera uma transfiguração, que eu chamaria de adequação temporal, introduzindo um elemento caro ao homem do século XX que pensa o casamento como a realização de um ideal romântico, onde duas pessoas que se apaixonam se buscam e não conseguem viver um sem o outro. 

Enquanto a mulher do século XX está à procura de um príncipe encantado e tem ilusão de que ele será um homem ideal que vai amá-la e respeitá-la até que a morte os separe, à mulher da idade média nunca chegaria a cogitar essa possibilidade esperando passivamente que seus familiares formalizassem um contrato com uma outra família, e a partir de então, viver a vida de cárcere legada a ela. 

As tentativas de buscar o Don Rodrigo histórico foram até bem-intencionadas, com a utilização de figurinos magníficos e até de uma pesquisa histórica feita em fontes diversas, mas não podemos ser ingênuos ao ponto de declarar que o filme “El Cid” está sintonizado com as fontes que o geraram. Hollywood não está preocupado com os aspectos históricos de suas produções, mas sim com a simples tarefa de entreter. Mas não deixa de ser uma boa obra cinematográfica. 

É uma produção grandiloquente, com cenas épicas de batalhas e duelos entre cavaleiros, tem um protagonista com uma índole superior, representando tudo o que de mais virtuoso há em um homem comprometido co sua honra e seu temor à Deus. Sua bela esposa Jimena representa a mulher ideal sonhada por qualquer homem do século XX. Há também antagonistas caricatos como o rei mouro que pretende ser o senhor de todos os reinos muçulmanos e é sempre representado de preto e com o rosto semicoberto. Mostra a ascenção de um rei Alfonso frágil e dependente de El Cid. Com todos esses elementos, temos um enredo que se distancia do histórico e nos aproxima do que idealizamos como sendo uma época heroica e romântica, onde o antagonismo entre o bem e o mal era bem definido. Onde a prevalência da honra e da moral deve ser o objetivo final.

Fontes:

  • Cantar de Mio Cid - PDF domínio Público disponível em: http://www.biblioteca.org.ar/libros/200138.pdf. Acesso em: 20 de julho de 2017.
  • Cantar de Mio Cid (POema de Mio Cid), audio libro - Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lA-_7U3pFxQ. Acesso em: 20 de Julho de 2017.
  • El Cid. Direção: Anthony Mann. Produção: Samuel Bronston Productions em associação com Dear Film Production. Itália/EUA, 1961, cor, 182 min. Lançado por: Allied Artists Pictures Corporation.
  • Montaner, A. El Cantar de Mio Cid. Real Academia Española. FUndación José Antonio de Castro, Madrid.
  • Vernon Johns Society, The El Cid(1961). Disponível em: http://www.vernonjohns.org/snuffy1186/elcid.html. Acesso em: 20 de julho de 2017.


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

Postagens Populares