quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Qual será o último reduto do folclore brasileiro?

Chico Lobo no programa de Rolando Boldrin- Imagem, site oficial do cantor


Para proteger o legado cultural regional que tende a se perder, algumas organizações buscam incentivar manifestações como a Folia de Reis, a Congada, a Catira e outras mais, através de encontros regionais de folclore, como ocorre todo ano na cidade de Guaxupé desde 2005. Eventos como este são realizados em várias cidades brasileiras. No sul de Minas as datas dos encontros são marcadas de modo que não venham a se coincidirem entre duas cidades, formando um tipo de ciclo onde cada final de semana o encontro é realizado em uma cidade. 

Estas festas geralmente contam com apoio do poder público, pois não se enquadram na qualificação de eventos propícios para o consumo, que se constitui no principal elemento para se conseguir o patrocínio de uma empresa privada. Isso faz com que alguns políticos estejam presentes em meio às solenidades, para enfatizar seu apoio a festa. No entanto o que podemos notar observando o ambiente destes encontros é a baixa quantidade de jovens. Estes estão se divertindo em suas domingueiras convencionais, – os encontros folclóricos geralmente são realizados no Domingo – ou seja a indústria do entretenimento, a diversão, ou a "celebração da modernidade", isto tudo está cristalizado na mentalidade da juventude. O que cada vez mais restringe as expressões da cultura popular. 

No entanto, as manifestações folclóricas ainda são exploradas como elemento turístico das cidades. Um cartão postal elaborado pelo departamento de Cultura, Esportes e Turismo de Guaxupé, mostra uma senhora, membro de uma Folia de Reis segurando a bandeira de sua Companhia. No verso do cartão temos a seguinte notificação: “A fé – As Folias de Reis são a expressões tradicionais da cultura popular guaxupeana. Em agosto acontece no município o encontro regional de folclore”. 

Notemos que as manifestações folclóricas ainda persistem como elemento demonstrativo da singularidade local em contraposição à visão padronizada da cultura do entretenimento, que visa o consumo em primeiro plano. 
Consuelo de Paula-
crédito da imagem (gramado rádiofloresta)

As reminiscências do campo são também um elemento utilizado de forma eficaz por artistas de todas as áreas, mas de uma forma mais nostálgica por músicos. Cantores como Chico Lobo, Consuelo de Paula e Sérgio Santos se utilizam largamente de elementos da Folia de Reis e da Coangada. A compositora e cantora Consuelo de Paula, natural da cidade de Pratápolis MG, resgata em suas canções as melodias e até a religiosidade popular da Folia de Reis e da Congada. Suas apresentações estão repletas de elementos folclóricos como a bandeira de Reis, e da Congada. Ela própria toca um tambor, feito artesanalmente com as mesmas características da caixa usada pela Folia de Reis e pelos ternos de Congo. 

Consuelo de Paula não é uma musicista vendável. Com sete CDs gravados (2017), ela se enquadra no rol dos músicos populares brasileiros que ficam a margem da indústria fonográfica. No entanto de uma forma ou de outra ela resgata a musicalidade de nossos antepassados e a registra em CD. Creio que isto fornecerá às gerações futuras, documentos que demonstrarão um pouco das nossas raízes. O compositor Sérgio Santos enfatiza que o que faz é uma “releitura da música da Congada”, pois segundo ele, somente o terno de Congo sabe fazer a Congada. Assim como Consuelo de Paula, Sérgio Santos se utiliza de elementos percussivos da Congada e os versos pertinentes à esta manifestação em suas músicas. 
Chico Lobo, um violeiro de Belo Horizonte que já desfruta de uma certa popularidade no meio artístico nacional sempre se utiliza de suas reminiscências do campo nas letras de suas canções. A Folia de Reis é sempre mencionada por ele em seus Shows como elemento de inspiração para suas canções. Lobo já se apresentou por duas vezes em Guaxupé. Nas duas ocasiões as apresentações foram ao ar livre e gratuitas, o que atraiu um bom público. Mesmo sendo apresentações que contavam com fundos do estado - Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais através da Lei de Incentivo a Cultura - a maior parte dos patrocínios provinham de empresas particulares, em especial a emissora de televisão EPTV de Varginha, que abrange todo o Sul de Minas. 
Mesmo sabendo que a cultura popular regional encontra maior apoio nos órgãos do Estado, seria incoerente dizer que somente o Estado tem êxito na manutenção desta. A música popular brasileira – isto não se refere aos artistas considerados “pop”, pois estes seguem uma lógica mercadológica - é fundamentalmente um reduto onde os elementos das culturas regionais ainda sobrevivem e se propagam. Creio que o folclore sempre será uma fonte de inspiração para os artistas que por motivos diversos não se vendem para a “pop art” ou para o comercialismo puro da indústria cultural. É óbvio que tais músicos não desfrutam de grande fama como os artistas “pop”, pois geralmente não se enquadram nos padrões do mercado fonográfico. Entretanto, até mesmo a “pop music” com seu status de música moderna, não consegue tirar destes músicos seus valores artísticos. Creio, em uma visão hipotética, que Keith Richards – guitarrista do Rolling Stones – não diria em sã consciência, que o violeiro Chico Lobo – considerado um virtuoso neste instrumento – é um músico atrasado porque nunca tocou uma guitarra elétrica. 

Acho interessante destacar outro defensor da cultura popular brasileira. O músico poeta e ator, Rolando Boldrin, apresentador do programa Som Brasil que era transmitido pela Rede Globo na década de 80. Hoje Boldrin apresenta o programa Sr. Brasil da Rede de televisão pública paulista, “TV Cultura” que possui as mesmas características do antigo Som Brasil. Ele disse em um de seus programas: “Eu não consigo ver o Brasil fatiado, para mim é tudo uma coisa só”. Com esta visão multicultural, Boldrin faz de seu programa uma verdadeira celebração das culturas brasileiras. Podemos assistir Consuelo de Paula tocando seu tambor de Congo, ou Chico Lobo dedilhando sua viola caipira, além de termos a oportunidade de ouvir “causos”, contado pelo próprio Boldrin, da época em que se vivia no campo. 

Para sintetizar e encerrar este tópico, acho oportuno falar de um outro músico brasileiro, este sim conhecido internacionalmente. Villa Lobos que é considerado por muitos, o maior gênio brasileiro da música erudita, se utilizava de muitos elementos da música folclórica em suas obras. Uma vez quando perguntado por um repórter que o entrevistava, se ele utilizava o folclore e suas composições, Villa Lobos respondeu simplesmente: “Eu sou o folclore”.


Chico Lobo Site oficial

Consuelo de Paula Site oficial

Sérgio Santos MPB net



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O que é Aculturação? Como pesquisar e entender o choque entre culturas utilizando o conceito de Aculturação.

Créditos: Imagem extraída do google imagens



Entendendo o termo Aculturação dentro da abordagem de Nathan Wachtel


A "Aculturação" se tornou um termo muito utilizado na antropologia e na sociologia, mas também muito recorrente em história, principalmente quando se trata do período colonial, onde temos geralmente uma cultura subjugada por uma cultura dominante. No entanto, seria muito simplista dizer que a aculturação diz respeito apenas a esta forma de dominação. Falar de aculturação em história chega a ser quase uma intervenção filosófica, tamanha a complexidade léxica desse conceito. O termo aculturação tem a função de conceituar o processo resultante do contato entre duas ou mais culturas. No entanto, esse processo nunca segue uma regra geral, ou seja, não há um conceito de aculturação que se encerra em si mesmo. 



Natan Wchtel - imagem divulgação

Os primeiros estudos de aculturação tinham em voga o período colonial e havia uma conotação evolutiva nesse termo, ou seja, esboçava a ideia de uma supremacia da cultura européia. Sendo que o adjetivo “aculturado” significava claramente “evoluído” evocando a ideia de que o processo de aculturação correspondia a um progresso da sociedade dirigindo-se a um modelo ocidental. Essa noção de aculturação está evidentemente superada. Como observa Nathan Wachtel:

Com efeito, a aculturação não se reduz a uma única marcha, à simples passagem da cultura indígena à cultura ocidental; existe um processo inverso, pelo qual a cultura indígena integra os elementos europeus sem perder suas características originais. Essa dupla polaridade confirma que a aculturação não pode ser reduzida à difusão, no espaço e no tempo, de traços culturais arbitrariamente isolados: trata-se de um fenômeno global que compromete toda a sociedade.  (WACHTEL, 1976 ,p 114)
            Ainda que a noção - nos dizeres de Nathan Wachtel  -  “conserve de sua origem colonial duas características complementares: uma interna, a heterogeneidade das culturas em presença, outra externa, a dominação de uma pela outra.”(WACHTEL 1976, p. 114). Wachtel ainda sugere que essas duas noções devem ser consideradas e deve ser aplicada na pesquisa sobre aculturação para depois termos elementos nos quais possamos fazer alguma generalização, no entanto, o próprio autor desmistifica tal abordagem dizendo que:

Mesmo se limitarmos a aculturação ao campo restrito da situação colonial, a extrema complexidade de processos e resultados parece, contudo, desafiar toda tentativa de generalização: nada mais arbitrário que isolar uma seqüência ou uma evolução que é declarada válida para todos os casos. Tantos quanto forem os exemplos concretos, tantas serão as aculturações diferentes.  (WACHTEL, 1976, p. 114)


            Sendo assim para cada abordagem sobre aculturação, um método deve ser utilizado caso não haja nenhum modelo na literatura, deve-se realmente criar uma metodologia. Wachtel estudou a fundo a dominação espanhola na América e para ele a aculturação pode ser imposta, ou espontânea. A primeira é quando a dominação estrangeira se dá de forma completa, no campo político, econômico e religioso, esse sistema é baseado na violência. A cultura dominante se impõe em detrimento da cultura dominada. Já a aculturação espontânea ocorre através de contatos comercias e pacíficos.
Ainda considerando os diversos fenômenos de aculturação, podemos distinguir uma outra divisão no seu processo. Trata-se – ainda usando Wachtel – da “integração” e no pólo oposto a “assimilação”: “No processo de integração os modos de uma cultura estrangeira são incorporados pela cultura dominada, que por sua vez modela esses elementos de acordos com seus próprios meios de vida. Wachtel nos dá um exemplo ao abordar a dominação espanhola da America:

Os elementos estranhos são incorporados ao sistema indígena que os submete a seus próprios esquemas e categorias; e mesmo se provocam mudanças no conjunto da sociedade, essa reorganização adquire sentido no interior dos modelos e valores autóctones ... Os navajos representam o caso clássico de uma sociedade constantemente enriquecida por contribuições exteriores, livremente selecionadas; originalmente caçadores –coletores e seminômades, receberam de seu contato com os pueblos determinados elementos de agricultura que favoreceram uma relativa estabilização de seu habitat (exemplo original de aculturação entre sociedades indígenas, mas de tipos diferentes).   ( WACHTEL, 1976, p. 118)


            Já no processo de assimilação ocorre o inverso, os elementos da cultura dominante substituem os elementos tradicionais dos seus dominados, por exemplo:

A adoção de elementos europeus se acompanha da eliminação das tradições indígenas, submetendo-se aos modelos e aos valores da sociedade dominante; ao final dessa evolução, a identidade étnica se dissolve nas variantes da cultura ocidental. (WACHTEL, 1976, p. 118)


Mas, o complexo de elementos contidos no tema, aculturação não param por aí. Entre assimilação e integração podem ser identificados outros tipos intermediários de aculturação. “É o caso de diversos sincretismos, combinações de elementos saídos de culturas diferentes, mas que dão lugar a um novo sistema ordenado segundo princípios distintos daqueles que regiam os sistemas de origem. No entanto não podemos pensar que esses diversos elementos de aculturação: integração, assimilação, sincretismo, disjunção, etc, são processos únicos de uma determinada sociedade, muitas vezes são processos que se alternam dentro de uma mesma sociedade. A estabilidade cultural dentro de uma sociedade que sofreu algum tipo de aculturação não segue, entretanto, uma lei linear que vai da integração á assimilação passando necessariamente por suas intermediárias, tudo depende de suas raízes intrínsecas, ou seja, cada sociedade ou sistema cultural definirá o que introduzir, assimilar ou rejeitar.
             Temos condições nesse momento de definir alguns pontos conclusivos para o uso do conceito de aculturação em uma pesquisa sobre história. Primeiro, comparar os elementos pertinentes ao objetivo da pesquisa, com a noção de colonialismo nos termos de Nathan Wachtel – cultura dominante, cultura dominada. Segundo, identificar através da bibliografia especializada - mesmo que seja na área de sociologia - o processo pelo qual a aculturação se dá - de forma espontânea, ou imposta. Terceiro, como é concretizada a aculturação, ou seja, como é feita a assimilação ou integração de novos elementos culturais na sociedade pesquisada, como são abandonados os elementos tradicionais dessa sociedade -  para essa etapa da pesquisa acho importante a utilização de fontes orais, já que são os membros dessa sociedade que participaram e participam do processo descrito. Quarto, já que se trata de uma aculturação contemporânea, onde quem vive esse processo é minha própria geração, é necessário inserir esses elementos dentro da ótica da modernidade, onde não será possível fugir á termos como, globalização, modernização, multiculturalismo dentre outros.     

Fontes:

  • Natan Wachtel - História e Antropologia de uma America "subterrânea". Disponível em: PDF  http://www.scielo.br/pdf/sant/v4n1/2238-3875-sant-04-01-0259.pdf. Acesso em 25 de dezembro de 2017. 
  • WACHTEL, Nathan. A aculturação. In: História: novos problemas. Direção de Jacques Le Goff e Pierre Nora, tradução de Theo Santiago. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976.  


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.




domingo, 26 de novembro de 2017

O medo da criança e sua persistência na vida adulta.


The Scream, by Edvard Munch. This version, executed in 1910 in tempera on cardboard, was stolen from the Munch Museum in 2004, and recovered in 2006.


Eu cresci imerso em uma família tradicional que viveu a maior parte de sua vida no campo, ou seja, todas as narrativas mais usadas para me manter longe dos perigos da vida faziam parte da minha educação. Coisas como, “não tome banho depois de comer, isso mata”, ou “nunca beba leite após comer manga, isso mata”, ou “não chegue perto do lago, pois a água te chama e você vai morrer afogado” ou ainda “não deixe o seu chinelo virado para baixo, ou sua mãe morrerá na mesma hora”. Essas máximas da cultura campesina ainda sobrevivem hoje em dia, principalmente nas pequenas cidades do interior. Mesmo sabendo que não passam de lendas mantidas pela tradição oral de tempos imemoriáveis, ainda tem gente que usa esse tipo de argumentos para justificar aos filhos o porquê eles devem fazer isso e não aquilo.

O mais assustador era que meus pais e avós sempre tinham uma comprovação concreta para deixar sua narrativa mais crível. “A Aninha morreu afogada, lembra? É porque ela foi na beira do açude e não resistiu ao chamado da água e entrou. ” Isso me assustava de uma tal maneira que só de pensar em passar perto de uma poça d’água eu já ficava receoso, afinal de contas eu conhecia a Aninha que morreu afogada. “O Luizinho morreu porque ele nunca obedecia sua mãe quando ela falava para ele não comer manga com leite”, poxa o Luizinho era meu vizinho. Não posso julgar hoje em dia no conforto da era da internet a educação que recebi de meus pais e avós, afinal creio que conseguiram me manter vivo durante os períodos mais turbulentos da minha vida. Nunca tive uma intoxicação alimentar, nunca tive uma congestão e nunca fui sequestrado por um tal “homem do saco”, personagem folclórico da região onde eu morava que atraia criancinhas com doces e coisas legais para depois mata-las e coloca-las no seu saco que carregava a toda parte. Sobrevivi graças ao medo que essas histórias me causavam. No entanto, hoje eu pareço pagar um preço um tanto caro por essa educação baseada no medo. Até hoje não sei nadar, pois morro de medo de água, para eu entrar em uma piscina tenho que comprovar que poderei permanecer em pé até no lugar mais fundo dela. Desenvolvi uma repulsa por leite interminável, simplesmente não tolero leite, para manter minha quantidade de cálcio em dia eu me alimento de seus derivados, mas nunca em seu estado natural. Hoje eventualmente tomo banho após o jantar, mas confesso que se eu pude evitar me sinto mito mais confortável. Pois após tomar banho depois de comer muito qualquer palpitação diferente já é um alarme para algo ruim que está prestes a acontecer.




Quando não tínhamos informações suficientes sobre as coisas e nossos pais queriam nos manter seguros essas histórias cumpriam bem seu papel, mas para crianças que já têm certa predisposição a sofrer de algum problema psíquico, que era o meu caso, essas histórias podem transformar essas crianças em adultos extremamente medrosos e limitados socialmente. Isso para não falar sobre os casos extremos de verdadeiras fobias crônicas que se instalam de forma irreversível nos indivíduos que foram criados sob essa pedagogia popular.

Há bases científicas para acreditar nessa interferência da criação infantil na vida adulta dos indivíduos. De acordo com uma pesquisa feita pela Harvard Medical School, 85% dos adultos com distúrbio de ansiedade sofrem sintomas fóbicos adquiridos durante a infância. Esse mesmo estudo feito com cerca de 250.000 pessoa ao redor do mundo revelou também que experiências precoces com situações de ansiedade tendem a se combinar e a se espalhar para outros tipos de distúrbios fóbicos. Por exemplo, se uma criança com seis anos de idade desenvolve uma fobia por cachorros, ela tem 5 vezes mais chances de desenvolver fobia social na sua adolescência do que uma criança que nunca teve medo de cachorro. E essa mesma criança tem 2.2 vezes mais chances de sofrer de depressão quando adulto. Ou seja, grosso modo, nossa vida psicológica adulta é moldada pelo quão medrosos nós fomos em nossa infância. (p.230) Nota-se que a aquisição de uma fobia na infância pode levar ao desenvolvimento de outra mais grave na adolescência que pode ser o pressagio de uma outra na vida adulta. Essa sucessão de distúrbios que se originam de outros é definida pela comunidade medica pelo termo “Comorbidade”. O jornalista americano Ron Kessler embasado nos estudos sobre comorbidade declarou que “ o medo de cachorro aos 5 ou 10 anos é importante não porque medo de cachorro prejudica sua qualidade de vida. Medo de cachorro é importante porque isso faz você 4 vezes mais suscetível a se tornar um indivíduo de 25 anos, deprimido, avesso aos estudos ou uma mãe solteira dependente de drogas. ” (230) é certo que a interferência das fobias infantis na vida adulta ainda é controversa necessitando de mais estudos acadêmicos sobre o tema, e mesmo que as palavras de Ron Kessler ainda possam ser consideradas exacerbadas, temos que admitir que sua preocupação é legítima. Quanto mais cedo diagnosticado o distúrbio de ansiedade e iniciado o tratamento correto, maiores as chances de termos uma vida adulta onde a ansiedade possa ser melhor administrada.  

No meu caso, ainda venho tentando descobrir o embrião de algumas fobias que me acompanham desde que me conheço, uma delas é um medo irracional de répteis, principalmente lagartos pequenos e serpentes. Simplesmente não posso nem pensar na existência dessas criaturas sem me arrepiar. Outra é uma fobia social que apesar de ocasionalmente controlada ainda me tira muitas oportunidades na vida. Sobre a fobia de lagartos, isso pode ser devido a um episódio que presenciei quando tinha lá meus 4 ou 5 anos quando uma lagartixa dessas de parede caiu na cabeça de minha mãe e ela se desesperou tanto que começou a correr pelo quintal como alguém que estivesse sendo perseguido pelo Michael Mayers. Não sei se eu já tinha esse medo antes, mas é a mais antiga memória de ver alguém em prantos por causa de um calango.


Sobre a fobia social creio que ainda tenho muito que descobrir, mas tenho algumas pistas, como sendo proeminente de um outro problema que hoje é classificado pelo manual estatístico de doenças psíquicas como “fobia de separação”, onde uma criança não suporta ser separada de seus pais. Eu definitivamente fui uma criança que seria diagnosticado com esse distúrbio se um psiquiatra atual me analisasse. Não suportava a ideia de ficar longe da minha mãe, pois meu pai havia falecido e creio que o medo de perdê-la foi amplificado a um nível doentio. Se levarmos em conta a pesquisa de Harvard citada acima, eu posso estar sofrendo hoje as consequências de uma fobia infantil que não foi resolvida e ela se ampliou de forma generalizada moldando meu comportamento na minha vida atual. Pode ser que o meus medos infantis tenham me tornado uma pessoa corajosa o suficiente para me mudar e viver sozinho e enfrentar as mazelas sociais que atingem um cidadão brasileiro de classe média-baixa, acelerar uma motocicleta em uma rodovia esburacada em plena tempestade, mas que não conseguiria entrar no meu próprio quarto se uma lagartixa estivesse grudada na parede ou até mesmo tremeria até os dentes só com o fato de ter que participar de um evento público onde a maioria das pessoas presentes me fossem desconhecidas. Mas como eu disse, esse ainda é um assunto complexo que estou trabalhando e postarei mais coisas a respeito.


Fontes:

  • Stossel, Scott. My Age of Anxiety - Fear, Hope, Dread and Search for Peace of Mind. Link amazon.
  • TRANSTORNOS DE ANSIEDADE: UM ESTUDO DE PREVALÊNCIA SOBRE AS FOBIAS ESPECÍFICAS E A IMPORTÂNCIA DA AJUDA PSICOLÓGICA. Disponível em PDF Em: file:///C:/Users/stanley/Downloads/2611-8228-1-PB.pdf. Acesso em: 26 de novembro de 2017.




André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Da Folia de Reis ao Halloween.

Foto: Pit Thompson - 62º Encontro Nacional de Folia de Reis de Muqui ES


Hoje em dia muito se fala na coexistência pacífica de várias culturas distintas em uma mesma sociedade, e para isto se cunhou o termo multiculturalismo. O Brasil, devido às suas proporções continentais e aos vários povos distintos que ajudaram a construir sua cultura, seria um exemplo de país multicultural, pois em um mesmo território politicamente constituído, podemos ter o privilégio de ver danças de origem indígena, como a Catira, danças rituais provindas de povos africanos, como a Congada, e ainda rituais da religiosidade popular que foram trazidas pelos portugueses, como a Folia de Reis, sendo todas praticadas em uma atmosfera de relativa paz. Tanto a Catira, como a Congada e a Folia de Reis são manifestações culturais de origens distintas que fazem parte do que se convencionou chamar de “cultura tipicamente brasileira”.

O Brasil possui uma rica e complexa atividade cultural, e podemos notar que estas atividades coexistiram paralelamente durante séculos de colonização, escravidão e imigração. Será que nossa rica cultura será agora nesta era da internet, suplantada por este emaranhado de culturas estrangeiras, que em muitas ocasiões se impõem em detrimento das nossas? 

        Desde o fim da Guerra Fria, quando o capitalismo vem conseguindo status de vencedor, gerando até algumas teses que decretavam o fim da União Soviética como o fim da própria história, o mundo vem passando por uma aceleração do processo de globalização. Processo esse que grosso modo, teve início com a expansão marítima dos países ibéricos no início do século XVI. Foi se intensificando com a Revolução Industrial na Inglaterra do século XVIII. Mas foi somente com o fim da bipolarização entre “bloco capitalista” e “bloco comunista” que esse processo vem se evidenciando de forma realmente global.

             A queda do Muro de Berlim pode ser considerado o marco simbólico que ilustra uma ideia de propagação do capitalismo como regime que democratizaria todo o globo. A dominação ideológica do capitalismo foi responsável, dentre outras coisas, por uma visão global de uma cultura dominante, fundamentada sobretudo, no padrão cultural norte-americano. O “American way of life” se espalhou mundo afora como um modelo a ser atingido pelos cidadãos dos países periféricos. Neste sentido, manifestações culturais provindas dos Estados Unidos são introduzidas no Brasil como elemento que integra uma noção de cultura superior, por estar vinculada à modernidade. Isto ocorre muitas vezes em detrimento da cultura tradicional local que passa a habitar um campo secundário nas relações culturais em um mundo cada vez mais globalizado. Esta globalização que se intensifica continuamente gera, no entanto, em âmbito nacional, alguns antagonismos provocados, sobretudo pela ação do Estado no intuito de fortalecer a identidade nacional. Assim, a introdução de uma manifestação cultural provinda dos Estados Unidos, como o “Halloween”, encontra alguns empecilhos internos, como movimentos de cunho nacionalistas, frentes formadas por políticos – muitas vezes oportunistas – tentando demonstrar algum amor a pátria ou de religiões evangélicas realizando uma verdadeira “Cruzada” contra o paganismo.

 No entanto, o “Halloween” praticado no Brasil hoje está isento do significado que esta festa possuía para aqueles que viviam nos países onde ela surgiu, ou que foram colonizados por estes. Nos Estados Unidos, de onde esta prática se espalhou para o mundo, o “Halloween” ganhou status de uma das datas do ano de maior faturamento no comércio, perdendo apenas para o Natal. Além disso, o cinema comercial norte-americano deu a essa festa um certo padrão às suas práticas. É essa noção que veio a se instalar no Brasil nas ultimas décadas. As crianças e adolescentes que praticam o “Halloween” no Brasil, não estão com isso, celebrando um festival folclórico, mas sim se integrando ao mundo do entretenimento global.

São os próprios atores sociais dessas manifestações que podem descrever melhor o que estas práticas significam para suas vidas como seres sociais. Neste contexto, o objetivo de um pesquisador da história cultural brasileira passa a ser, contrastar opiniões e analisar os mecanismos que levam uma tradição estrangeira a se impor perante uma cultura que possui seus próprios valores intrínsecos. 

 A Folia de Reis faz parte de uma comemoração cristã difundida essencialmente pelo catolicismo popular, tendo em Guaxupé, Minas Gerais, até mesmo uma igreja dedicada aos “Santos Reis”. Já o “Halloween” de origem pagã, sofre uma dura reprovação por parte das instituições cristãs. Católicos e principalmente protestantes, investem arduamente no intuito de desviar seus fiéis do caminho desta “festa demoníaca”. No entanto, essas performances religiosas e, ou nacionalistas não são capazes de estancar o avanço mundial da cultura global de rede. Fica aqui essa reflexão. O que acontecerá com a cultura popular?


André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem (Resumo)

Don Juan y l'estatua del Comendador.

Versão Resumida
Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina.




O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.
Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
O Don Juan de Molina não é um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. 
A figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. 


O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.
Esse mito se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.

Leia o artigo completo AQUI

Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.



André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

O Mito de Don Juan e o protagonismo social do homem







Don Juan y l'estatua del Comendador.

Fizemos aqui algumas reflexões sobre a solidificação do protagonismo social do homem em detrimento da passividade feminina sob a ótica da obra teatral “El burlador de Sevilla” de Tirso de Molina. A escolha da obra em questão está em sintonia com um recorte temporal e temático, que não visa esgotar as reflexões sobre o tema em épocas e contextos diferentes.
O mito de Don Juan, inaugurado na literatura, por Tirso de Molina no início do século XVII, conhecido como o século de ouro da literatura espanhola, busca efetivar o discurso da moral cristã, onde a monogamia e a repressão dos desejos humanos eram elementos caros para a boa conduta social. A peça de Molina nos dá, no entanto, uma rica contextualização dos papeis sociais do homem e da mulher daquela época.

O protagonismo social do homem na obra de Molina
Tirso de Molina

Para analisarmos a obra devemos entender um pouco sobre seu autor. Tirso de Molina era o pseudônimo de Gabriel Téllez, um frei católico abertamente entusiasta de Lope de Vega. Se destacou na dramaturgia escrevendo peças que tinham sempre a defesa da moral cristã como pano de fundo. Ele teria escrito “El burlador de Sevilla y el convidado de piedra” em 1630. Apesar dessa história ter sido compilada de outros contos e peças mais antigas, atribui-se a Molina a primeira referência escrita dessa peça. É essa obra que pela primeira vez trará à tona o mítico personagem Don Juan, que no decorrer dos séculos posteriores será objeto de diversas releituras e adaptações para contextos sociais diversos, incluindo versões traduzidas para a linguagem cinematográfica com o advento do cinema já no século XX.
Nosso foco, no entanto, é a obra original de Molina, considerando-a como fundadora do mito de Don Juan para a posteridade. Em “El Burlador de Sevilla” Don Juan é um protagonista caricato, sem compromisso com a visão romântica que chegou até nós pelas mãos do poeta britânico Lord Byron. O Don Juan de Molina é um personagem que está estreitamente em sintonia com sua condição privilegiada de um homem com influência na sociedade de Sevilha do século XVII. Sua performance não é de um sedutor apaixonado, mas sim de um enganador crônico que se satisfaz desonrando as mulheres tanto da nobreza quanto as pescadoras mais desprovidas de destaque social. Como podemos notar no verso 1315 da peça.

Sevilla a voces me llama
el burlador, y el mayor
gusto que en mí puede haber
es burlar una mujer
y dejarla sin honor.
(MOLINA, p.35)

Já no início da obra, Don Juan acobertado pela escuridão de um aposento, engana a Duquesa Isabela fingindo ser Duque Octavio, o homem que desejava se casar com ela. Neste episódio, o próprio Duque é preso injustamente pelo ato praticado por Don Juan. Em uma outra oportunidade, Don Juan sofre um naufrágio e é ajudado por uma pescadora de nome Tisbea. Don Juan a seduz e oferece amor eterno e, a pede em casamento, em seguida abandona-a para que viva completamente sem honra. Durante uma conversa com seu amigo, o Marques de Motta, Don Juan descobre que este está apaixonado por sua prima Doña Ana, o burlador não perde a oportunidade de tramar para se aproveitar da bela dama, no entanto, nessa ocasião, Don Juan é impedido pelo pai da vítima, Don Gonzalo, que é morto pelo burlador em uma luta. Isso não o detém, e vai em busca de outra vítima. Aminta é uma lavradora que já estava prometida a Batrício, Don Juan a engana dizendo que seu noivo a abandonara e que ele se casaria com ela.
Como podemos notar, a figura essencial desse mito é o homem. É então somente o homem que detém uma característica ativa enquanto a mulher é totalmente objeto da ação desse homem. Como coadjuvantes, às mulheres só restava confiar nos destinos que os homens lhes concediam. Até mesmo a desonra sofrida por elas não era passível de vingança pelas suas próprias mãos. Sobre isso Paulo Victo Bezerra e José Sterza Justo, ambos da área da psicologia dirão:

[...]são sempre figuras masculinas que protagonizam os diálogos resolutivos. A honra da mulher burlada é apresentada como um problema masculino, no sentido de que, uma vez tirada a honra, é o pai, ou o marido que sofre a degradação social. O grande drama nesse caso é que a mulher ficará imprestável para se casar. E não podemos deixar de enfatizar que foi por isso que Don Juan foi levado ao inferno primeiramente: porque Don Gonzalo tinha a obrigação moral de duelar com aquele que lhe ofendera a honra ao tentar cortejar sua filha. (BEZERRA, JUSTO, 2010, p.6).

O que fica evidente ao analisar essa peça, com o conforto de mais de 300 anos de história ocorridos desde então é a incapacidade das mulheres se emanciparem dentro da rigidez religiosa daquela sociedade. O mito de Don Juan nos permite hoje entender o quanto a coibição da ação feminina era alegórica para o protagonismo social do homem da Espanha do século XVII.

O contexto social da obra.
Don Juan and Haidee- Alexandre Marie Colin

Podemos notar que Don Juan se comportava como um predador, e essa forma de agir é o que dá o tom didático da peça. A honra (honor), como questão de status social, era muito cara para o espanhol do século XVII. E a mulher sem honra não se casaria, sua desonra afetaria toda sua família e sua reputação a condenaria a viver uma vida marginal, seja ela uma nobre ou uma lavradora. Ou seja, mais importante do que o que você é, é a forma como a sociedade te enxerga.  A honra é um elemento fundamental para a vida, pois entre viver uma vida sem honra (honor) e a morte, a segunda opção sempre parecerá mais atrativa. Isso fica evidente no verso 1590.

¡Ay, que me has dado la muerte! ........... .
Mas, si el honor me quitaste,
¿de qué la vida servía?
(MOLINA, p. 43)

Nessa ocasião, Don Gonzalo está agonizando após ser atingido de morte por Don Juan, ao enfrentar o burlador em defesa de sua filha Doña Ana.
Parece-nos claro que a questão primordial para Molina, era efetivar a honra como elemento crucial para a vida em sociedade, uma clara medida de valor que deve ser buscada. No entanto, o que vem a luz em nossa reflexão é o fato de que eram as ações dos homens que definiam a honra das mulheres, enquanto uma mulher desonrada sofreria as mais deprimentes consequências sociais, o mesmo não parecia ocorrer aos homens que as desonravam.
O próprio Don Juan não acreditava que seria punido – ou pelo menos não tão em breve – afinal ele nunca se mostrava cauteloso em suas práticas de burla. Apesar de sempre ser advertido por seu pai e até mesmo pelo seu criado Catalinon. Em várias ocasiões ele simplesmente respondia com sua frase mais celebre: “¡Qué largo me lo fiáis!” (Ainda  uma expressão que expressa sua indiferença em relação a seus atos presentes, pois ainda há muitos anos para ele pensar em se arrepender.
Nesse sentido, a condenação do protagonista ao inferno, é o desfecho que parecia natural desde o início da trama, afinal o propósito de Molina se mostra claro. Mesmo que você viva impune pelas leis dos homens, jamais será negligenciado pelas leis divinas. Dessa forma Don Juan paga o preço pretendido pelo catolicismo, pois é diretamente encaminhado para o inferno sem nem mesmo passar pelo purgatório. Ou seja, á Don Juan nem mesmo é dada a alternativa de se arrepender, como poderiam pretender os adeptos da reforma protestante de Martinho Lutero que à época era motivo de preocupação para os católicos – esse aspecto revela o caráter antirreformista da obra.
As mulheres enganadas por Don Juan são perdoadas ao final do espetáculo e recuperam sua honra, mas, mais uma vez, não mediante sua própria capacidade de lutar por isso, mas porque os homens assim o fizeram. Nesse sentido a obra de Molina perpetua o protagonismo social do homem como sujeito de ação, enquanto a mulher é o objeto que sempre sofre a ação.

Considerações finais.
As mulheres burladas pelo protagonista desempenhavam papéis secundários naquela sociedade, e sua total submissão ao domínio masculino permitiu que Don Juan desempenhasse suas práticas. Don Juan agia movido simplesmente pelo desejo de burla. Todas os seus atos não tinham um propósito que não fosse o de enganar mais uma vítima. Nesse diálogo entre Don Juan e seu criado Catalinon, o burlador é claro:

CATALINON: ¿Al fin pretendes gozar a Tisbea? (890)
JUAN: ..............                .Si el burlar es hábito antiguo mío,
¿qué me preguntas, sabiendo mi condición?
CATALINON: ..........      Ya sé que eres castigo de las mujeres.
(MOLINA, p. 24)

No entanto, todo o contexto social vivido por Don Juan lhe dava certo conforto. Don Juan era aparentado de pessoas influentes na corte espanhola e desfrutava de toda regalia de um nobre. Por outro lado, a passividade feminina na obra, demonstra com clareza, a total dependência destas em relação aos homens. Afinal não foi dada a nenhuma delas a prerrogativa de se vingar do burlador. Quem defendia e se via socialmente no dever de vinga-las eram seus familiares homens.
O mito de Don Juan se torna recorrente na literatura ocidental. No decorrer da história ele foi retomado e transformado de acordo com a corrente ideológica atuante. Se o Don Juan de Molina é contumaz com o período histórico em que vive o autor, o Don Juan de Byron traz uma nova leitura do mito, tornando-o um herói sedutor que ama as mulheres e não mais as engana. Visão somente possível dentro da ótica romântica que idealiza uma mulher desejada, quase sacra. O que a adaptação de Byron revela não é somente uma transformação estética, mas sim uma necessidade de equiparar a mulher e o homem no campo da paixão. Agora Don Juan também poderia ser vítima da beleza feminina. Visão esta, que era impossível na época de Molina e que no século XIX timidamente já encontrava seus algozes dentro do movimento romântico, e no século XX iria se amplificar com os movimentos de emancipação feministas.
Ou seja, a obra de Molina assim como a de Byron, são fotografias de seus momentos históricos e o fato de não ser possível transpor o Burlador de Sevilha de Molina para o século XIX ou XX, revela que, se não desfrutam de um protagonismo social pleno, as mulheres não estão a total mercê dos caprichos masculinos como antes estiveram.


Referências bibliográficas:

  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. O Mito de Don Juan e a subjetividade moderna. R. Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.11, n.2, p.72-95, Jul-Dez. 2014. Disponível em: Acesso em: 27 de julho de 2017.
  • BEZERRA, Paulo Victor; JUSTO, José Sterza. E se Don Juan fosse uma mulher? Um estudo acerca das transformações do mito. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. 23 a 26 de agosto de 2010.
  • KARDOUS, Paul. A sedução: Don Juan e as mulheres. PUC/SP. São Paulo. 2010.
  • MOLINA. Tirso de. El Burlador de Sevilla. Trinity University, Texas, 2003
  • PEDRO, Claudia Bragança; GUEDES, Olegna de Souza. As conquistas do movimento feminista como expressão do protagonismo social das mulheres. Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010. GT 2. Gênero e movimentos sociais – Coord. Renata Gonçalves. 2010.
  • RIBEIRO, Lilian dos Santos Silva. Don Juan e a construção de um Mito em El Burlador de Sevilla. Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas, departamento de Letras Modernas, Programa de graduação em Literatura Espanhola. São Paulo, 2007.
  • SUÁREZ, Carmen Becerra. El Mito de Don Juan em el Cine. marzo-abril [2011] 259-267 ISSN: 0210-1963. Universidade de Vigo. 2011.

André Stanley alcunha de André Luiz Ribeiro é professor e escritor; autor do livro “O Cadáver” (Editora Multifoco – 2013); É membro efetivo da Asso. Dos Historiadores e pesquisadores dos Sertões do Jacuhy desde 2004. Atua hoje como professor e pesquisador de História Cultural. Também leciona língua inglesa, idioma que domina desde a adolescência, Administra e escreve para os blogs: Blog do André Stanley (blogdoandrestanley.blogspot.com) – Sobre História, política, arte, religião, humor e assuntos diversos e Stanley Personal Teacher (stanleypersonalteacher.blogspot.com) onde da dicas de Inglês e posta exercícios para todos os níveis.

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